Ideias e poesias, por mim próprio.
Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2016
“Retornados”: os refugiados portugueses do século XX

O termo, expressão ou designação, "retornado" foi particularmente utilizado nos tempos que se seguiram à revolução do "25 de Abril de 1974".

Aquela expressão visava identificar, mas sobretudo molestar, os portugueses vindos das ex-colónias, muitos deles chegando a Portugal em sofrimento e grandes dificuldades, após se terem confrontado, sem "apelo nem agravo", com os processos impostos, precipitados, violentos, irracionais, e até mesmo traidores, das irresponsáveis independências ultramarinas.

A maioria destes portugueses retornavam ao país donde tinham partido muitos anos antes, donde haviam emigrado com enormes sacrifícios e em busca duma condição melhor, e outros, os africanos naturais, filhos ou descendentes de portugueses, aqui chegavam depois de terem sido forçados a abandonar as suas próprias pátrias, na verdade, a refugiarem-se num terceiro país.

Todos eles foram expatriados à força e contra a sua vontade das suas terras e haveres pela ação de delinquentes fardados e armados à pressa pelos oportunistas descolonizadores portugueses. 

Os chamados processos de descolonização portuguesa visaram especial e preferencialmente entregar as possessões africanas portuguesas aos interesses estrangeiros, com particular cuidado e simpatia aos movimentos internacionais comunistas, fossem eles soviéticos, cubanos ou chineses!

O amargo do reverso da medalha imperialista anti-comunista estaria guardado para o martírio do povo de Timor-Leste...

E os povos naturais africanos, sem terem alguma vez sido sujeitos a uma consulta popular, ou referendo, para o efeito, foram abandonados pelos descolonizadores ao genocídio das guerras civis que se sucederam imediatamente.

Recém-chegados à “metrópole”, nos anos 1975/76, que ameaçava então mergulhar num pântano comunista, estes “novos” portugueses, confrontados com uma realidade absurdamente diferente e mal refeitos da sua atribulada fuga, com os seus escassos haveres ou só a roupa vestida, logo se depararam com essa xenófoba “identificação”.

Mas, os naturais metropolitanos portugueses, na sua terra, possuem uma particular habilidade para agredirem os mais fracos, os judeus, os pretos, os “estrangeiros” e …todos os outros.

Eu, moçambicano português de nascimento, nessa altura, uma criança de meros 9 anos, desenraízado e assustado com uma realidade muito diferente, também fui hostilizado por crianças e adultos, algumas vezes tive mesmo de me defender com os punhos, ou, com a especial habilidade que tinha em atirar pedras, respondia-lhes com as mesmas “munições".

Também fui protegido por alguns estranhos, vizinhos e novos amigos; uma certa vez, aos meus 10 anos de idade, por ter sido identificado como “retornado” fui derrubado da bicicleta por um matulão mais velho, que, quando se aprontava para me “malhar” no chão, foi afastado pela intrépida e para sempre amiga “Lai”.

O comunismo e o marxismo dos independentistas africanos, roubou-nos o nosso património, a nossa naturalidade e, inclusivamente, os nossos registos oficiais e, a seguir, mergulhando os povos autodeterminados numa matança coletiva, entregou-nos ao maltrato dos seus “camaradas” portugueses.

Hoje, ainda não completamente sarados da traição, dos roubos e dos insultos, nunca fomos ressarcidos, e nem sequer nos pediram desculpa (mas os portugueses só expiam os seus pecados com Deus ...!), já só raramente alguns energúmenos usam depreciativamente a palavra “retornado”.

Os “retornados” foram os primeiros, e únicos, refugiados em massa em Portugal, na sua própria terra!

Chegaram à antiga metrópole nos anos "quentes" da revolução portuguesa, nos anos de 1975/1976, e, na sua grande maioria, foram votados ao abandono e esquecimento pelo Estado Português.

Depois de terem sido espoliados pelos movimentos marxistas independentistas das ex-colónias portuguesas, chegados à sua pátria natural, não receberam sequer quaisquer apoios públicos relevantes, ao invés receberam em grande parte das autoridades portugueses oficiais desprezo e repulsa.

Ainda assim, este mais de um milhão de naturais, filhos, netos, ou descendentes de portugueses, souberam, com o seus esforço, denodo, coragem e, distintamente, com o seu civismo, exemplares, integrarem-se na sociedade e economia portuguesas, tendo, inclusivamente, sido uma capital humano decisivo para o desenvolvimento económico e social de Portugal que se deu mais tarde nas décadas de 80 e 90 do século XX.

Eu lembro-me desse tempo, eu era um “deles”!

Cheguei a Portugal no distante ano de 1975, era dia 1 de Novembro, tinha apenas 9 anos...chuviscava e fazia imenso frio, como nunca tinha sentido na vida, tudo era mais escuro, as estradas eram muito apertadas, parecia tudo tão pequeno e confuso…, as diferenças pareciam abissais em relação ao que estava habituado até aí, tudo mesmo, especialmente as pessoas que passava a conhecer como jamais as tinha visto ou ouvido…

Até a língua portuguesa soava tão diferente!

O choque cultural, social, económico, político, …foi profundo e traumático, nós, os então denominados "retornados", não fomos nada simpaticamente recebido por muitos portugueses!

Apesar destas centenas de milhares de portugueses ultramarinos terem chegado, na sua esmagadora maioria, a Portugal só com a roupa que tinham vestidos, das separações familiares, do desenraizamento forçado, da fuga das suas próprias casas, escorraçados inocentemente a tiro e sob insultos das suas terras de nascimento, magoados, enxovalhados, ainda assim, foram recebidos pelos portugueses metropolitanos com frieza e rancor sob os epítetos de "colonialistas", "ladrões" e "racistas"…

A justiça histórica continuará ausente e por se fazer até ao dia em que estes portugueses sejam adequada e proporcionalmente ressarcidos dos seus danos patrimoniais e morais lhe infligidos.

Mas, os “retornados”, imbuídos pelos largos horizontes africanos, deram uma resposta de paz e de desenvolvimento como não houvera igual até aí, no século XX, em Portugal; e agora outros portugueses voltam aquelas fascinantes terras em busca do seu pão e do seu futuro.

Tempos absurdos e irracionais que foram aqueles…

E nunca mais deixámos, até hoje, de ser “retornados”, com o tudo o que isso significou e intimamente nos marcou...

As particulares nostalgia, saudade, e uma particular consciência da sua "singularidade africana", ainda hoje fazem pulsar de modo diferente a vida, a consciência e a condição destes portugueses, que um dia foram africanos e... "retornados".

E nós, os “retornados”, lembramos sempre com extraordinário orgulho e profunda saudade a “nossa” África!

 

- Sérgio Passos -

 

retornados.jpg

 

(Junho e Julho de 1975: chegada a Lisboa dos retornados das antigas colónias em África - foto Alfredo Cunha/arquivo)



publicado por Sérgio Passos às 12:59
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8 comentários:
De Isabel Filipe a 9 de Janeiro de 2016 às 11:37
Gostei imenso de ler e subscrevo todas as tuas palavras....
e, eu tinha 20 anos quando de lá vim.


De António Cotrim a 10 de Janeiro de 2016 às 12:43
Obrigado. N1966 em Moçambique e chegada à Metrópole em 1975


De Anónimo a 10 de Janeiro de 2016 às 11:57
Ao contrário, os principais causadores de tamanha desgraça nacional ainda se encontram a usufruir dos benefícios colhidos pelas traições cometidas. Continuam com fundações, governantes de um dívida em que a responsabilidade única é a do seu aumento que será impagável pelas gerações futuras e, acabarem como naqueles tempos por entregar o que resta agora de PORTUGAL por outros meios designadamente os económicos e estratégicos como ´a TAP e outros mas à mesma espécie de ocupantes que não deixam de ser na mesma, os chineses, russos e outros donos do mundo mas por processos mais dissimulados..


De Orlando Pereira a 10 de Janeiro de 2016 às 20:16
Ainda não havia Marizas Matias nessa época, teríamos tido mais sorte.


De Anónimo a 11 de Janeiro de 2016 às 15:24
SIMPLESMENTE UMA VERGONHA NACIONAL, QUE AINDA HOJE VIVE E VIVERÁ POR MUITO MAIS. SIMPLES COVARDIA POR PARTE DE CERTOS SUPOSTOS GOVERNANTES, QUE NA REALIDADE NÃO PASSAVAM DE TRAIDORES INTERESSEIROS.
NÓS SIM LUTAMOS MUITO PARA DEFENDER O NOME DE PORTUGAL, QUE FOI SUJO PELO CHAMADOS (DA METRÓPOLE) DE MERDA QUE NADA FIZERAM A NÃO SER BEBER BAGACEIRA, PARA ESCONDER A VERGONHA DO QUE
FIZERAM. NADA A FAZER AGORA A NÃO SER IR VIVENDO, POIS DEUS VIU TUDO E ALGUÉM PAGARÁ!!!!


De Manuel Nobrega a 4 de Fevereiro de 2016 às 23:20
Ainda hoje continuamos a ser descriminados durante quarenta anos ajudamos a construir este país construímos as nossa casas só com a ajuda da Noruega e agora espetam-nos a faca nas costas e dizem-mos que moramos num bairro clandestino e que temos de pagar 610 mil euros. Continuamos a ser espoliados


De Rui Leão a 16 de Abril de 2016 às 11:27
Eu nasci cá, o meu colega era retornado, o "Nascimento" molatinho o outro era o Zé tb molato, muita pedrada levei e dei pois juntei-me a eles..com o tempo "reinámos" na escola e criámos raízes de amizade até hoje..discuti muitas vezes com idiotas e cheguei á conclusão que a maioria deles eram mesmo ignorantes..ou pior analfabrutos.. mais tarde também falei sobre isso com pessoas que argumentavam que a maioria dos retornados eram funcionários públicos e que vieram retirar trabalho aos novos que aqui estavam pois tinham prioridade devido á antiguidade.. ainda não percebi a verdadeira razão..pois acho que são várias e a primeira tem a haver com o ter vivido muito tempo debaixo de uma ditadura e tudo o resto são consequências, mas isso não justificou a falta de atenção durante anos e anos dos governos consecutivos que tivemos, e os portugueses que combateram no Ultramar praticamente abandonados durante anos..uma vergonha!


De Filomena Magalhães a 18 de Agosto de 2017 às 23:14
Sou a Filomena ando a procura do meu Pai Francisco Zacarias, trabalhou no grêmio Sta Eria - ex-Nova Lisboa- Angola. Ele têm outros filhos ( Fina, Dina e beto). Agradeço desde já quem poder partilhar


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