Ideias e poesias, por mim próprio.
Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2012
Os verdadeiros liberais são democratas!

"O que significa ser-se liberal? O que significa em Portugal dizer que o governo é liberal ou que o ministro X é liberal?

Ao contrário do mundo anglo saxónico, em Portugal o termo liberal é encarado do ponto de vista do liberalismo clássico, isto é, um liberal em terras lusas (assim como na Europa continental) significa por norma um defensor incondicional do livre mercado.

Mas se assim é, qual é a razão para a imprensa e demais opinantes chamarem liberais a ministros e governos de ideologia social democrata que aumentam impostos, revelam fobia de liberalizações económicas em inúmeros sectores e vão participando activamente no processo de centralização de poder europeu?

A resposta passará certamente pela cultura socialista que perdura na psique dos nativos e que está sempre disposta a erroneamente apelidar de liberal todos aqueles que não revelam no seu discurso uma obsessão redistributiva compulsiva.

Já no que diz respeito aos que se auto-entitulam liberais, a questão torna-se mais aguda, visto que, em muitos casos, estes diferem na forma como entendem o conceito. Apesar destas diferenças, o livre mercado é o denominador comum.

Porém, ultimamente assiste-se em Portugal a debates acesos entre liberais onde uns se auto-denominam liberais sociais, defendendo inúmeras formas de intervenção governamental, e outros auto-denominam-se liberais clássicos (ou anarcocapitalistas), que consideram que o Estado não deve ser activo. Os primeiros são herdeiros do new liberalism anglo saxónico e diferem do liberalismo clássico (proponente do Estado mínimo) por terem transfigurado o valor central desta corrente filosófica: a liberdade. Para os sociais liberais, a liberdade é positiva e não negativa como defendem os liberais clássicos e os anarcocapitalistas.

A liberdade negativa esteve na essência do liberalismo (clássico) até ao princípio do século XX e consiste na liberdade para cada indivíduo agir e decidir a sua vida sem ser coagido por outros, desde que não interfira com as liberdades dos demais (que no caso liberal clássico inclui o direito à vida, liberdade e propriedade).

Na viragem do século XIX para o XX, um novo conceito de liberdade foi trazido para o liberalismo: a liberdade positiva. Esta consiste na liberdade para atingir objectivos independentemente da situação real do indivíduo. Por outras palavras, os proponentes da versão positiva da liberdade consideram que um indivíduo só é livre se puder atingir os seus objectivos e para tal precisa de se livrar dos constrangimentos da realidade social onde vive (normalmente materiais e de capacidades físicas/cognitivas). Como seria de esperar, para esse indivíduo se livrar destes constrangimentos, o Estado tem de lhe proporcionar as “condições” necessárias. Neste conceito cabem ideias como o direito à saúde, o direito à educação, direito ao ordenado mínimo, o direito a participar e a delegar ao Estado a imposição das preferências dos cidadãos pela via democrática, etc. Com esta nova noção de liberdade nasceu o “novo liberalismo”, que é igualmente apelidado de “liberalismo social”.

Daqui decorre que o liberalismo social e o clássico são antitéticos e incompatíveis, quer em prática, quer em teoria. A liberdade positiva suportada pelo liberalismo social implica a destruição das liberdades com base no livre arbítrio, na autonomia individual, na ausência de coerção, na propriedade privada e na acção voluntária; tudo características defendidas pela liberdade negativa do liberalismo clássico.

A título de exemplo, quando um liberal social advoga o direito à saúde, tal implica que alguns seres humanos (médicos, enfermeiras) irão ser forçados a trabalhar em prol de outros, nas condições que o Estado quer, independentemente da vontade desses profissionais de saúde. Usando um argumento sob forma de Reductio ad absurdum, se todos os médicos se recusassem a exercer nessas condições, o Estado, sob o postulado da liberdade positiva e do direito à saúde, podia obrigar os mesmos a fazê-lo sob coerção (o que colocaria o acto ao nível da escravatura).

Ainda mais evidente será a relativização que os liberais sociais aplicam à instituição da propriedade privada, visto que, mesmo quando reconhecem virtudes no mercado, estão dispostos a que o Estado use a coerção fiscal e expropriação para financiar os direitos positivos que advogam.

Esta incompatibilidade entre direitos negativos e positivos fazem com que liberais sociais e os clássicos não consigam ter um diálogo que os faça chegar a pontos remotamente semelhantes.

Na prática, o liberalismo social não difere muito da social democracia e não é de surpreender que grande parte dos partidos liberais europeus se situe no centro esquerda, precisamente porque são dirigidos por sociais liberais, ou, como eufemísticamente se definem: liberais com preocupações sociais.

Ademais, vale a pena sublinhar que, em última instância, esta opção de usar a liberdade positiva em vez da negativa torna possível que se defenda um sistema comunista onde só há direitos positivos e continuar a chamar-lhe liberalismo.

Desta forma e em conclusão, ser liberal é cada vez mais algo que não significa nada de objectivo, nem na opinião pública e imprensa, nem na filosofia política e partidária. Praticamente tudo pode ser apelidado de liberalismo. Como consequência, tal como aconteceu no mundo anglo-saxónico, não ficaria surpreendido que os liberais que são proponentes da liberdade negativa começassem progressivamente a abandonar o termo “liberal” para adoptar o termo “libertário” (libertarian)."

 

 
 
oinsurgente.org


publicado por Sérgio Passos às 14:50
link do post | comentar | favorito
|

mais sobre mim
pesquisar
 
Outubro 2017
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5
6
7

8
9
10
11
12
14

15
16
17
18
19
20
21

22
23
24
25
26
27
28

29
30
31


posts recentes

População

A patranha do crescimento...

Portugal pode acabar, a n...

O lixo financeiro e a mer...

34 medidas para reformar ...

Eleições para caciques

O Palhaço e o Burro

Definição de Socialismo (...

A "cláusula democrática" ...

Justiça para Pedrógão Gra...

arquivos

Outubro 2017

Setembro 2017

Agosto 2017

Julho 2017

Junho 2017

Maio 2017

Abril 2017

Março 2017

Fevereiro 2017

Janeiro 2017

Dezembro 2016

Novembro 2016

Outubro 2016

Setembro 2016

Agosto 2016

Julho 2016

Junho 2016

Maio 2016

Abril 2016

Março 2016

Fevereiro 2016

Janeiro 2016

Dezembro 2015

Novembro 2015

Outubro 2015

Setembro 2015

Agosto 2015

Julho 2015

Junho 2015

Maio 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Junho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

tags

todas as tags

links
Contador
blogs SAPO
subscrever feeds