Ideias e poesias, por mim próprio.
Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2012
“Eu não tenho inimigos.” - Liu Xiaobo, Prémio Nobel da Paz 2010, atualmente preso pela ditadura comunista da China.

 

 

“Eu não tenho inimigos.”

 

(A defesa de Liu Xiaobo perante as acusações do Estado Chinês, que o condenaram à prisão.)

 

 (O discurso de Lio Xiaobo no Tribunal chinês, respondendo às acusações de “crime de incitar à subversão contra o poder do Estado", e que o condenou a 11 anos de prisão. (Igualmente Lido por Liv Ullmann na Cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Paz, a 10 de Dezembro de 2010, na ausência do laureado Lio Xiaobo)

“No percurso da minha vida, por mais de meio século, Junho de 1989 foi o decisivo ponto de viragem da minha vida. Até esse momento, fui membro da primeira classe a entrar na Universidade a partir do momento em que os exames de admissão foram recolocados após a “Revolução Cultural” (Curso de 1977). Da BA até MA e durante PhD, a minha carreira académica foi um suave percurso. Depois da conclusão dos meus estudos, permaneci no ensino na Universidade Regular de Beijin. Como professor, fui bem recebido pelos estudantes. Ao mesmo tempo, fui um intelectual público, escrevendo artigos e livros, criados num ápice durante os anos 80, recebendo frequentemente convites para dar palestras no país, e indo ao estrangeiro a instituições escolares da Europa e dos Estados Unidos. O que eu procurava de mim mesmo era: quer como pessoa como escritor, queria guiar-me por uma vida de honestidade, responsabilidade e dignidade. Depois disso, regressei dos Estados Unidos para tomar parte no Movimento de 1989. Movimento, pelo qual foi levado à prisão pelo “crime de contra-revolucionário, propaganda e incitamento.” Perdi então a minha amada docência e nunca mais pode publicar ensaios ou dar conferências na China. Tudo isto apenas por meramente ter publicado diferentes pontos de vista e tomar parte no pacífico movimento pela democracia, um professor perdia assim a docência, o escritor perdia o seu direito a publicar, e um intelectual público perdia o seu direito a publicar ensaios e dar palestras publicamente. Isto é uma tragédia, tanto para mim, pessoalmente, como para a China, como não se via há 30 anos desde a “Reforma e Abertura”. Quando penso nisto, a minha mais dramática experiência depois do “4 de Junho” foi, surpreendentemente, associada aos tribunais: as minhas duas oportunidades de dirigir publicamente foram-me concedidas pelas sessões de julgamento no Tribunal de Municipal Intermediário de Beijing, uma vez em Janeiro de 1991 e outra vez hoje. Embora os dois crimes pelos quais eu tenha sido acusado tenham diferentes nomes, a sua real substancia é basicamente a mesma – ambos são crimes de opinião.

Vinte anos passaram, mas os fantasmas do “4 de Junho” ainda não foram afastados. Logo após a minha libertação da Prisão de Qincheng em 1991, eu, que havia sido colocado sob a etiqueta de dissente político pelas cadeias filosóficas do “4 de Junho”, tendo perdido o meu direito de me expressar em público no meu próprio país e só o podendo fazer através da imprensa estrangeira. Por causa disso, fui submetido a monitorização, e colocado sob vigilância residencial (de Maio de 1995 a Janeiro de 1996) e depois enviado para a Reeducação-Através-Do-Trabalho (de Outubro de 1996 a Outubro de 1999). E agora fui uma vez mais colocado a um beco pelo “inimigo mental” do regime. Mas eu quero ainda dizer a este regime, que se me priva da minha liberdade, eu continuo ciente pelas convicções que expressei na minha “Declaração da Segunda Greve de Fome de Junho” vinte anos atrás – “Eu não tenho inimigos e não tenho ódio”. Nenhum dos polícias que me vigiou, prendeu ou interrogou, nenhum dos acusadores que me indiciou, e nenhum dos Juízes que julgou são meus inimigos. Embora eu não aceite de maneira nenhuma a vossa vigilância, as prisões, as acusações e os veredictos, eu respeito as vossas profissões e a vossa integridade, incluindo a dos dois acusadores, Zhang Rongge e Pan Xueqing, que agora sustentam as acusações em nome da acusação. Durante o interrogatório em 3 de Dezembro, eu senti o vosso respeito e a vossa boa-fé. O ódio pode destruir a inteligência e a consciência de uma pessoa. Um inimigo mental envenena o espírito de uma nação, incita a cruéis e mortais lutas, destrói a tolerância e a humanidade da sociedade e impede o progresso de uma nação através da democracia e da liberdade. Esta é a razão porque eu tenho esperança de ser capaz de transcender as minhas experiências pessoais enquanto olho para o desenvolvimento e a mudança social da nação, para contrapor à hostilidade do regime com a derradeira boa-vontade, e ao seu ódio expelido com amor.

Todos sabem que foi a “Reforma e Abertura” que trouxeram ao nosso país o desenvolvimento e a mudança social. A meu ver, a Reforma e da Abertura iniciou-se com o abandono do “uso da luta de classes como princípio guia” da era política do governo de Mão (Tse Tsung), colocando em seu lugar o compromisso do desenvolvimento económico e da harmonia social. O processo do abandono da “filosofia da luta” foi também um processo do enfraquecimento do inimigo mental e da eliminação da psicologia do ódio, e o processo de eliminação do “leite do lobo” como estranho ao ser humano. Foi este processo que permitiu um clima relaxado, interna e exteriormente, e foi por meio da prática de métodos sensíveis e humanos para a restauração mútua dos afetos entre as pessoas e a coexistência entre os diferentes valores e interesses, que foi possível providenciar e encorajar humanidade com criatividade e restaurando a compaixão entre os concidadãos. Qualquer um pode dizer que foi o abandono do “anti-imperialismo e do anti-revisionismo” nas relações externas e da “luta de classes” internamente a premissa básica que permitiu que o movimento da Reforma e da Abertura pudesse continuar até ao dia de hoje. O estabelecimento do mercado livre, a diversificação cultural, e a gradual mudança em ordem social regulada pelo poder da lei beneficiaram do enfraquecimento do “inimigo mental”. Até na arena política, onde o progresso geralmente é lento, o enfraquecimento do inimigo mental levou a uma gradual evolução da tolerância do pluralismo social numa parte do regime e uma substancial diminuição na pressão da perseguição dos dissidentes políticos, e a designação oficial do Movimento de 1989 também mudou de “tumulto e agitação” para “perturbação politica”. O enfraquecimento do inimigo mental abriu caminho para o regime gradualmente aceitar a universalidade dos direitos humanos. Em 1997 e 1998 o governo chinês tomou o compromisso de assinar as duas mais importantes convenções internacionais das Nações Unidas, assinalando a aceitação chinesa dos padrões internacionais dos direitos humanos.

Em 2004, o Congresso Nacional do Povo emendou a Constituição, escrevendo na Constituição pela primeira vez que o “Estado respeita a garantia dos direitos humanos”, assinalando-se que os direitos humanos são já um dos fundamentais princípios do Estado de Direito da China. Ao mesmo tempo, o actual regime reforçou as ideias de “o povo primeiro” e “criar uma sociedade harmoniosa”, assinalando com isso o progresso do conceito do poder. Eu também fui capaz de sentir esse progresso a um macro nível através da minha experiência na minha prisão. Pese embora eu continue a pensar que estou inocente e que as acusações contra mim são inconstitucionais, passou já mais de um ano desde que perdi a minha liberdade, eu já estive preso em dois diferentes locais e já fui sujeito a quatro interrogatórios policiais, três procuradores e dois juízes, mas no tratamento do meu caso eles não foram desrespeitadores para comigo, apesar das limitações de tempo, não tendo eles tentado forçar uma confissão. As suas maneiras foram moderadas e razoáveis, além do mais, eles mostraram na maioria das vezes boa-vontade.

A 23 de Junho, foi deslocado da vigilância residencial em que havia sido posto para o Centro de Detenção da Policia Municipal de Beijing conhecida como a “Beikan”. Durante os meus 6 meses de permanência em Beikan eu observei melhorias na direcção da prisão. Em 1996, passei tempo na velha Beikan (localizada em Banbuqiao). Comparada com a velha Beikan de há mais de 19 anos atrás, a presente Beikan é um enorme melhoramento, tanto em termos de “hardware” – nas instalações – como no “software” – na direcção. Em particular, a direcção humana implementada pela nova Beikan, baseada no respeito dos direitos humanos e na integridade dos detidos trouxe flexibilidade na actuação da direcção e em todos os aspectos do pessoal da cadeia, e veio a encontrar expressão nas “confortáveis maneiras”, na ressocialização, na música antes das refeições, no lazer e nos tempos livres. O estilo da direcção permitiu aos detidos a experiência de dignidade e conforto, e dá a entender uma vontade de manter a prisão ordeira em oposição ao uso da força contra os presidiários. Não só permitiu uma existência humana no ambiente dos detidos, como também apresentou grandes melhorias para os processos aí que tinham lugar bem como no estado de espírito dos detidos. Tive um contacto muito próximo com o oficial de correcção Liu Zheng, que estava no controle da minha cela, e o seu respeito e cuidado para com os detidos podia-se bem ver em cada um dos detalhes do seu trabalho, fazendo sentir cada um das suas palavras e cada um dos seus actos, e fazendo sentir o seu caloroso sentimento. Foi talvez a minha grande sorte, ao ter-me permitido conhecer este sincero, honesto, consciencioso, oficial correccional durante o meu tempo em Beikan. É precisamente por causa destas convicções e desta experiência pessoal que eu estou firmemente convencido que o progresso da China não mais parará, e eu, impregnado com este optimismo, olho para e futuro e para o advento de uma China livre. Para isto não há nenhuma força que possa por fim à busca da procura humana pela liberdade, e a China no fim tornar-se-á uma nação governada pela lei, onde os direitos humanos serão supremos. Eu espero também que este tipo de progresso possa reflectir-se neste presente julgamento tal como espero a condução imparcial deste tribunal – a condução que há-de resistir à História.

Se me é permitido dizer, a mais afortunada experiência destes últimos vinte anos passados anos foi o altruísta amor que recebi da minha esposa, Liu Xia. Ela não pode estar hoje presente como observadora no tribunal, mas eu quero dizer-te, minha querida, o nosso amor foi sempre saboroso, e permanece ainda infinito. Estou a servir a minha sentença numa tangível prisão, enquanto tu me esperas na intangível prisão do coração. O teu amor é a luz do sol que ultrapassa as parede altas e penetra pelas barras de ferro da janela do meu cárcere, tocando todos os milímetros da minha pele, aquecendo todas as células do meu corpo, permitindo guardar-me sempre em paz, abrindo e resplandecendo o meu coração, e acompanhando-me com carinho todos os minutos do meu tempo na prisão. O meu amor por ti, por outro lado, é tão cheio de remorsos e arrependimento que às vezes faz-me esmagar sobre o seu peso. Sou uma insensata pedra do deserto, fustigada pela força do vento e pelo sol torrencial, tão quente que ninguém se atreve a tocar. Mas o meu amor é sólido e aguçado, capaz de atravessar através de qualquer obstáculo. E mesmo que eu seja esmagado em pó, eu usarei as minhas cinzas para te abraçar.

Minha querida, com o teu amor eu posso fazer face ao actual julgamento, não tendo arrependimento acerca das escolhas que fiz e para o que espero com optimismo no amanhã. Eu olho para o futuro e para o dia em que o meu país será um terra de liberdade de expressão, onde o discurso livre de cada cidadão será tratado com igualdade: onde os diferentes valores, ideais, crenças, e pontos de vista políticos possam todos competir entre si e coexistirem pacificamente; onde os pontos de vistas das maiorias e os das minorias sejam igualmente garantidos, e onde os pontos de vista políticos diferentes dos actuais do poder, em particular, sejam totalmente respeitados e protegidos; onde todos os cidadãos possam exprimir os seus pontos de vista políticos e estes possam ser espalhados sob o sol para o povo os poder escolher livremente, onde cada cidadão possa tomar os seus pontos de vista políticos sem medo, e onde nenhum pessoa e em nenhuma circunstância possam sofrer perseguições policiais por tomar visões políticas divergentes. Eu espero que eu seja a última vítima da China das inquisições literárias e que daqui em diante ninguém seja incriminado por causa da expressão do seu pensamento. A liberdade de expressão é o fundamento dos direitos humanos, a força da humanidade, e a mãe da verdade. O estrangulamento da liberdade de expressão equivale a pisar os direitos humanos, a reprimir a Humanidade, e a suprimir a verdade. Em ordem ao exercício do direito à liberdade de expressão conferido pela Constituição, cada um deve cumprir a sua própria responsabilidade de cidadão Chinês. Não há nada de ilícito em tudo o que fiz. Se as acusações são trazidas contra mim são por causa de tudo isto, eu não tenho qualquer queixa a fazer.

Obrigado a todos.

 

Liu Xiaobo.

 



publicado por Sérgio Passos às 20:18
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