Ideias e poesias, por mim próprio.
Terça-feira, 13 de Março de 2012
O dono da tabacaria e a sua namorada (6).

A casa dos pais da namorada estava hoje repleta de afazeres, havendo inúmeras ocupações na sala de estar e na cozinha.

Era o dia de noivado dos dois jovens, ela mais nova e ele agora relegado a um lugar etário igual em virtude da oportunidade de uma futura celebração de esponsais.

Na sala a mesa principal encontrava-se ocupada e servida pelo melhor serviço de louça, de marca e adornado com brasões régios e flores de laranjeira.

A última vez que a terrina da sopa, os pratos cubos e os rasos, as travessas e a saladeira tinham sido colocadas no louceiro havia já quarenta e sete anos, havia sido pela ocasião do noivado da sua mãe e do seu pai.

A mãe agora estava tão feliz quanto havia sido na ocasião em que a sua mãe lhe havia servido um jantar e ao seu noivo, o pai da agora noiva.

Fazia anos que não se sentia tão sorridente, até mesmo e por momentos pareceu recordar os calores daquele distante dia de noivado, quiçá fosse o calor dos tachos, onde suava o refogado do cabrito, não conseguiu tirar a dúvida.

Mais logo ao deitar se saberia.

As flores de laranjeira pintadas manualmente naquela louça apresentavam ainda o vigor de todas as quarenta e sete primaveras contadas desde a última festa de noivado celebrada e rijamente festejada naquela casa.

Os avós ainda tinham estado presentes na ocasião e haviam também sorvido da sopa servida, segundo lembram foi uma canja de galinha, morta para a ocasião, e criada durante anos a fio.

Assim se fazia antigamente, comer uma galinha era mesmo só pra festas, fora disso lá se comiam em dias sorte alguns ovos, a maioria era para a venda, a receita comprava o açúcar, a farinha e, como era costume dizer-se, as linhas e as agulhas domésticas que fazem falta a qualquer a casa.

Nos demais dias era uma sardinha a dividir por três ou quatro comensais, dependendo do tamanho do peixe, e acompanhando sempre um caldo de couves, nabos e outras leguminosas, noutras eram favas ou grãos-de-bico, cada um nas suas épocas, e um generoso naco de toucinho que a salgadeira havia temperado de sal durante mais de 3 meses até chegar a sua hora de se trincar suculentamente no prato e afogado em gorduras, hidratos e muito azeite caseirinho.

Os frutos da terra e da lavoura eram a dispensa da casa, a abundancia foi coisa que nunca faltou, enquanto a saúde pudesse não havia a temer, as leiras de terra apresentavam-se como uma companhia pela vida fora e da natureza esperavam-se quatro estações, mais ou certas, como nem agora se conhecem na maioria dos relógios.

As vinhas de outrora forneciam o generoso tinto colhido das vindimas.

Havia morrido fazia mais de uma dúzia de anos, o velho Adriano, o avô da noiva, seco de carnes e magro de sorrisos, de humores e génio etílicos, tão zelosamente cuidava e amava as suas vinhas e os seus vinhos.

Valha a verdade, raramente o vinho chegava à mesa em condições de ser bebido, ou vinha amargo ou azedo, pelas inúmeras vezes que era provado antes e depois de ser dado como cozido, não fosse dar-se o caso do néctar se estragar antes do tempo.

As crianças têm uma igual tentação quando se fazem bolos, a pressa esvazia a cozedura de muitos ainda eles não chegaram ao clímax, caso os adultos não vigiem a ambos.

Outros tempos foram esses em que as costas curvas dos homens, cavadores de profissão, abriam a terra em sulcos profundos à volta das videiras, as podavam acariciando e convidando o rebentar dos seus frutos, as sulfatavam colorindo em azul e grená, vindimas se faziam pela força das mãos de homens e mulheres e os homens mais rijos acartavam cestos de uvas às costas e o vinho se rebentava das uvas pela ação dos pés descalços dos pisadores.

Hoje era o dia do pedido da mão da noiva, e o vinho foi apanhado na prateleira do supermercado da rua, era um tinto maduro do douro, veio na companhia do azeite, do bacalhau e de uma garrafa de um champanhe barato, porque a crise não permite grandes flostrias.

O rapaz, já homem, veio na hora combinada, eram perto de oito horas da noite, ainda não havia começado o noticiário da televisão, mesmo a tempo de escutarem para a hora do início do telejornal uma conferência de Imprensa do Ministro da Defesa por ocasião de um grave protesto de desagrado dos sargentos da Marinha que, vá-se lá a ver o desplante hilariante, fizeram no dia anterior uma manifestação em frente a residência oficial do Ministro com os remos às costas e envergando ao peito os salva-vidas, reclamavam um aumento de salário de dois vírgula três por cento de aumento, exigiam novos e alaranjados coletes salva vidas, porque os últimos já estavam esbranquiçados de muitos anos de nenhum uso e, por fim, pediam que aos novos recrutas não fosse mais exigido o décimo-segundo ano da escolaridade obrigatória como condições sine-qua-non para ingressar na marinha.

A Marinha é um lugar para a guerra e não para os intelectuais, diziam os seus sindicalistas, intervalados pelo refrão de “É mar é marinha, viva Portugal”.

O futuro noivo vinha num fato janota, um azul-marinho, a desmaiar para o arroxeado, coisa, ficou a constar, causada por ação dos armários protegidos por bolas de naftalina.

A naftalina tem efeitos estranhos, que a ciência ainda não conseguiu explicar completamente, embora seja usada como agente anti-traça com muitos bons resultados desinfetantes, contudo tem efeitos díspares nas cores dos tecidos, afiançou o futuro noivo.

Ninguém acreditou na explicação arrevesada para a cor desbotada da fatiota, salvou-se ao menos a gravata amarela fluorescente e uma camisa branca poida nas golas.

Os sapatos castanhos, umas meias azuis e às riscas grenás e um cinto preto compunham a personagem.

A noiva apresentou de calça de ganga e t-shirt, mostrando sinuosamente as formas dos salientes peitos, aureolados pelos mamilos eriçados, calçando um sapatos de saltos altos que tinham seguramente de altura bem perto de uns 10 centímetros, fazendo-a caminhar pela vista do seu redondo e torneado quadril e das pernas vistosas e apertadas, apertadas e marcadas sob o tecido da ganga.

Os protestos da avó fizeram-se logo ouvir, a rapariga estava muito oferecida disse severa e rindo-se lascivamente por dentro, aquilo já não era como no seu tempo de há quarenta e sete e mais anos, outro respeito e o que a visa nunca via já os filhos paridos nunca faltava, enchiam as casas e a descendência e a ocupação braçal não faltava aos campos e ao trabalho.

Outro tempo e outros costumes em que a sua filha havia sido prometida ao noivo, perdão a mão prometida, trajando um vestidinho de popelina, estampado com cornucópias, e uma capucha na cabeça, e o pai, o noivo, usava um casaco e calças pretas de sarja barata e de camisa branca comprada para a ocasião, sem usar gravata que era coisa que sempre se havia recusado usar por se queixar que os nós ao pescoço lhe tiravam o ar.

O noivado era uma instituição de coisa séria, era uma liturgia sagrada de compromissos familiares, era uma escritura lavrada a troca de uma inviolável honra, tal qual a honra virginal duma filha era entregue em sacrifício da criação pura e lavada das futuras gerações, pelos filhos dos filhos e pela povoação das casas de família, das gentes, dos lugares e das terras de Portugal.

Tal qual como Deus e Cristo fizeram Humanidade, assim os portugueses auguravam nos casamentos a continuidade da sua fé, bem como a certeza da sua esperança terrena da continuação das famílias.



publicado por Sérgio Passos às 23:18
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