Ideias e poesias, por mim próprio.
Sexta-feira, 9 de Março de 2012
O dono da tabacaria e a sua namorada (2).

Poderia escrever, claro está se tivesse génio para tanto, que não tenho, um livro sobre a relação tão especialmente amorosa entre o dono da tabacaria e a sua namorada.

Vou-me limitar, apenas, umas pequenas palavras alinhavadas, para que o destino daquelas duas personagens se sinta livre de escrever o enredo pelo qual eles dois ainda hão-de dar frutos e descobridores ao mundo.

Entre aqueles dois seres, certamente, só pode mesmo haver amor, sou eu que aqui vos digo e afianço, com toda a certeza, e o juro do que estou total e plenamente convencido.

Pois como poderá de outra maneira se entender que aquela flor angelical, de gestos tão finos e repenicados, que é capaz de varrer o chão usando numa mão a vassoura e na outra a longa pá de lixo e o faça, graciosa e levemente, em gestos curtos e pausados, sem curvar as suas costas, um sequer milímetro, e sempre de cabeça levantada, tal qual uma bailarina hirta executa uma longa e graciosa valsa, seja capaz de amar aquele ser tão destrambelhado e tosco, sempre de cigarro na ponta da boca, de barba de fazer há três dias e com as fraldas sujas da camisa de fora, umas vezes aviando clientes na tabacaria e outras indo a nenhures e deixando o estabelecimento entregue aquela graça tão-sem jeito?
Certamente é amor, digo-o com inveja e admiração.

Só pode ser e é certamente!

Dois seres tão diferentes e ao mesmo tempo tão apaixonados, o que eu já os vi babados a admirarem-se mutuamente na pastelaria ao lado; enquanto ela comia e ao mesmo tempo saboreava o chantili com a ponta da língua um "éclair" e ele sorvia audivelmente um café, só pode ser, dúvidas não existem.

E sorriam um para o outro.

Ele usualmente fala entre gargalhadas e faz contas na loja perdendo-se nos trocos, já ela devolve-nos as moedas de troco como quem nos dá pétalas de rosa para nos perfumar o jornal do dia.

Mas a pergunta e a dúvida, que é de fascínio e admiração, interroga-nos e espanta-nos, como é que aquela donzela tão-sem jeito, reluzente, qual fogo sereno de inverno à lareira, de cintura fina, longas pernas, dourados e compridos cabelos, de face estreita, estreito e comprido nariz, de pequenos e luminosos olhos e de sorriso maroto sempre pronto, pode amar um ser tão-sem jeito e bruto?

Aqueles dois seres amam-se, o amor dela só pode ser de fascínio por um qualquer desconhecido mundo novo a desbravar.

Já o amor dele por ela virá de uma qualquer atração semelhante à de um indígena ou nativo por uma condição e qualidade que ele nunca, jamais, alcançará.

 

(continua)



publicado por Sérgio Passos às 11:31
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